No início do século 20 o recém-inventado cinema era visto como simples entretenimento, mas com o desenvolvimento de técnicas que se beneficiavam dele para contar histórias, essa linguagem audiovisual foi sendo aperfeiçoada. Na segunda metade do século, essa linguagem ia sendo popularizada conforme entrava nos lares das pessoas através da televisão.
No livro A linguagem secreta do cinema, Jean-Claude Carrière faz uma reflexão sobre a chamada “gramática da linguagem audiovisual”. Ele defende que o audiovisual, assim como a linguagem escrita, possui códigos que nos permitem não somente "escrever" e "ler" histórias, mas também vender um ponto de vista: convencer as pessoas através do audiovisual.
Ao longo da história essa linguagem audiovisual foi se moldando às necessidades e valores dos diferentes agentes que a utilizaram: estúdios de cinema, governos, artistas, emissoras de televisão e de transmissão. Não obstante, iam sendo contemplados também os interesses de patrocinadores e aliados de quem detinha o aparato de produção e difusão audiovisual.
Logo, se uma notícia ou informação desagradasse um dono, acionista, político ou até mesmo amigo de um dos envolvidos ao longo do processo, ela poderia ser descartada ou moldada através da manipulação audiovisual para que se encaixasse melhor na "realidade" defendida por essas pessoas.
Ainda assim, a produção audiovisual tradicional, que envolve diversos agentes e processos, precisa passar por determinados crivos antes de ser difundida: seja ele a Constituição do país, o código de ética profissional de determinada profissão (como o jornalismo), o código interno das empresas de produção e difusão ou até mesmo a opinião pública.
Essas produções audiovisuais dependem de grandes investimentos e, por dependerem do grande público, as empresas se veem obrigadas a se manter dentro de uma certa margem de honestidade sob a pena de perderem a audiência e, consequentemente, o patrocínio dos anunciantes.
No século 21, com a evolução da tecnologia, uma única pessoa com um aparelho que cabe no bolso pode sozinha produzir, usar uma plataforma para exibir e, através das redes sociais, distribuir sua produção audiovisual com relativa simplicidade.
Por um lado, essa nova realidade possibilita que produções independentes sejam conhecidas pelo público. Por outro lado, essa facilidade permite que uma produção seja distribuída sem passar por nenhum crivo profissional, acadêmico ou mesmo corporativo, ou seja, é possível disseminar qualquer conteúdo, mesmo que esse contenha informações incorretas, sem necessariamente correr grandes riscos.
Assim, o audiovisual se tornou um dos tentáculos das chamadas Fake News (informações falsas disseminadas como se fossem reais), conferindo através da manipulação da gramática audiovisual um verniz de legitimidade a tópicos anticiência, contra a Constituição, contra os Direitos Humanos, entre outros conteúdos prejudiciais.
Nesse contexto é indispensável conhecermos os mecanismos de manipulação audiovisual não apenas para nos protegermos desses conteúdos, mas para entendermos a responsabilidade de cada um de nós enquanto criadores, consumidores e disseminadores de conteúdo, ou seja: como agentes da mídia.
Na obra A República, o filósofo grego Platão cria a alegoria de várias pessoas presas desde o nascimento em uma caverna sem poder ver o mundo exterior, apenas suas sombras projetadas em uma parede. Essas pessoas, que não conhecem nada além dessas sombras, creem que elas são a realidade e não uma versão distorcida da mesma.
Podemos traçar um paralelo entre a caverna de Platão e nossas telas: nelas vemos uma profusão de imagens, mas, ao invés de sombras, vemos luzes que representam "a realidade" — não a realidade tal como é, mas tal como quem a produziu quer que acreditemos que ela seja.
Assim como os moradores da caverna, uma vez que se nasce imerso e atuante no mundo audiovisual (ainda que nem sempre conscientemente), torna-se difícil lançar sobre ele visão crítica. Fica evidente a importância de difundir o audiovisual como um processo de construção, onde o produtor manipula e, muitas vezes, distorce o significado do material.
Para não sermos vítimas da manipulação audiovisual, precisamos aprender sobre a linguagem audiovisual, conhecer seus mecanismos, suas fórmulas e formatos. Entender como o audiovisual pode ser usado para nos enganar é estar um passo a frente de quem utiliza essa ferramenta para nos prejudicar.
A alfabetização audiovisual como ferramenta da educação midiática busca, através do processo de letramento audiovisual, permitir que as pessoas se entendam como agentes da mídia: elementos indissociáveis e igualmente importantes do ecossistema midiático, não importando se elas produzem, disseminam ou apenas consomem conteúdo.
Precisamos aprender a produzir conteúdo com intencionalidade e responsabilidade e entender que um simples like ou visualização contribui para a disseminação daquele conteúdo e que a responsabilidade de quem dissemina é tão grande quanto a de quem produz um vídeo na internet.
Em um mundo permanentemente conectado, a melhor arma contra a desinformação é o conhecimento.