O audiovisual, assim como a linguagem escrita, tem uma gramática própria. Cada série, filme ou reels pode ser destrinchado em sequências, cenas, quadros e planos para ser analisado, do mesmo jeito que podemos dividir este texto em parágrafos, os parágrafos em frases, as frases em palavras e as palavras em letras.
Essa linguagem audiovisual não serve apenas para nos contar histórias: ela também é utilizada para vender um ponto de vista e ao longo de sua história foi moldando-se às necessidades e valores de seus realizadores, sejam eles artistas, comunicadores, vendedores ou políticos.
Assim como a língua escrita, a linguagem audiovisual é viva, ou seja, conforme as pessoas a utilizam, ela se transforma através de seu uso constante e da disseminação de novas formas de utilizá-la. Por exemplo, antigamente, as pessoas se tratavam formalmente por "vossa mercê'. Com o tempo esse pronome de tratamento foi sendo contraído, para "vossemecê", "vosmecê", depois "vancê", até chegarmos, nos dias atuais, à palavra "você". Essas mudanças não ocorrem da noite para o dia, elas acontecem lentamente e se dão devido à incorporação de certos "maneirismos" ao vocabulário geral no dia-a-dia.
Do mesmo modo, hoje assistimos a um meme na internet composto por duas gravações diferentes e nosso cérebro automaticamente cria um contexto para uni-las. Mas no início do século passado as pessoas não entenderiam as duas imagens como parte de uma mesma "história".
Essa evolução na linguagem audiovisual aconteceu, a princípio, por conta das experimentações dos cineastas que buscavam aperfeiçoar a linguagem. Depois, com a chegada da televisão, porque a linguagem precisava atingir públicos cada vez maiores e de diferentes classes sociais.
No início do século 20, o audiovisual se concentrava no recém-inventado cinema, que ainda era visto como simples entretenimento, mas com o advento da montagem e o desenvolvimento de técnicas que se beneficiavam dela para "escrever" histórias com as imagens em movimento e o som, a linguagem audiovisual foi sendo aperfeiçoada. A partir a segunda metade do século 20, com o advento da televisão, a linguagem audiovisual foi definitivamente popularizada conforme entrava nos lares das pessoas.
Meio século mais tarde a tecnologia dá cada vez mais acesso aos meios de consumo e produção audiovisual, mas também nos defronta com a dificuldade cada vez maior em traçar a barreira entre a informação e a construção narrativa utilizada para transmitir essa informação.
Hoje a evolução da linguagem audiovisual é constante porque há cada vez mais pessoas produzindo conteúdo, e porque há cada vez mais nichos a serem contemplados com essa produção. Uma única pessoa, com um aparelho que cabe no bolso, pode sozinha produzir, usar uma plataforma para exibir e, através das redes sociais, distribuir sua produção audiovisual com relativa simplicidade.
Se por um lado é importante democratizar o acesso à produção audiovisual e termos vozes mais plurais nessa cadeia, por outro temos que tomar cada vez mais cuidado ao passar adiante esse tipo de conteúdo, pois estamos mais vulneráveis a conteúdo manipulado, como as fake news.
Por isso, a alfabetização audiovisual busca sensibilizar as pessoas para a responsabilidade coletiva e individual na produção, consumo e disseminação de conteúdo midiático, visando que o indivíduo participe do ambiente digital de forma crítica e construtiva, colaborando para a integridade do ecossistema informacional.